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Entrevista Ignacy Sachs
Clique no link e leia a entrevista de Ignacy Sachs ao Portal Uol Notícias, realizada em 22/11
04:24 PM, 30 Nov 2009 por Admin. Comunidades | Comentários (0)
A revolução azul em marcha
Por Ignacy Sachs, 6 de outubro 2009
Com o aumento da população mundial e os conflitos sobre o uso de recursos escassos, como solos agricultáveis e água, ganha em importância a revolução azul, baseada na valorização dos bioprodutos que crescem na água. Para os Territórios da Cidadania, abrem-se oportunidades de projetos interessantes, à condição que os institutos de pesquisa e as universidades brasileiras dêem a devida importância ao assunto.
O Brasil tem 12% da água doce do planeta, mais de 8400km da costa marítima, uma Zona Econômica Exclusiva de 4 milhões de km², 10 milhões de hectares de lámina de água em reservatórios e apenas 1% do comércio mundial do pescado que movimenta 92 bilhões de dólares ao ano.
Em boa hora, a Embrapa anunciou a criação da Embrapa Aqüicultura e Sistemas Agrícolas no Tocantins, de maneira a enfatizar as pesquisas sobre a produção aqüícola em água doce. A nova unidade vai no entanto coordenar as pesquisas em escala nacional, incluíndo as relativas ao cultivo de espécies marinhas.
A nível internacional, multiplicam-se as tentativas para o aproveitamento energético de algumas entre as numerosas espécies de algas existentes no mundo, desde organismos unicelulares até sargaços que se extendem por dezenas de metros.
Exxon Mobil, uma das maiores empresas de petróleo nos Estados Unidos, está investindo 600 milhões de dólares neste empreendimento. Bill Gates está financiando Sapphire Energy, uma empresa que vai produzir combustível para automóveis. Os planos desta empresa são: 266 mil litros de biocombustível no ano 2011, 26,6 milhões de litros por ano em 2018 e 266 milhões de litros por ano a partir de 2025. Aparentemente, 150 outras empresas estão empenhadas na corrida. Segundo Thomas Byron, secretário da Algal Biomass Organisation, os investimentos privados avizinham 2 bilhões de dólares.
O interesse pela algas vem do fato de que elas não precisam de bons solos agricultáveis nem de água limpa, podem ser produzidas em águas poluídas e até servir para sua despoluição. Um projeto piloto na cidade de Saint Paul nos Estados Unidos vai criar algas numa unidade de despoluição da água.
Ademais, as algas ostentam taxas de crescimento muito altas, algumas espécies duplicam o seu peso de uma a quatro vezes em cada 24 horas. Segundo Greg Mitchell, do Scrips Institute of Oceanography, algas podem produzir 100 vezes mais óleo vegetal por hectare e ano do que a soja e 10 vezes mais do que o dendê. Exxon Mobil espera atingir rendimentos de cerca de 19 mil litros por hectare. Alguns entusiastas da bioenergia de algas sonham em transformar o Great Salt Lake nos Estados Unidos num imenso reservatório de algas que dariam para extraír 250 bilhões de dólares de biocombustíveis. Jeff Muhs, um pesquisador da Utah State University, pretende que 2,2 milhões de hectares de algas seriam suficientes para produzir todo o óleo diesel consumido nos Estados Unidos.
As dificuldades começam com a colheita. Muitas algas são 10 vezes menores do que um cabelo. A centrifugação é possível porém cara. Em compensação, o refino é muito simples. Uma questão em aberto é de determinar o que é mais rentável: cultivar algas em reservatórios ou em foto-bioreatores.
Segundo Raffaello Garofalo, diretor da Associação Européia de Biomassa, o biodiesel a partir de algas sai atualmente de 10 a 30 vezes mais caro do que os biocombustíveis tradicionais. Outras fontes dão números mais otimistas. O custo atual seria de três vezes superior ao dos biocombustíveis tradicionais. Outrossim, um sistema revolucionário de secagem permitiria a redução do custo desta fase de produção em 99%.
Por fim, uma questão importante é o aproveitamento dos subprodutos. Projetos a respeito existem em Portugal e na Itália.
Um dos projetos mais ambiciosos está sendo levado a efeito pela Synthetic Genomics em San Diego (Califórnia). As expectativa é de produzir em dez anos biocombustíveis obtidos a partir de algas unicelulares geneticamente transformadas para produzir hidrocarbonos que podem ser diretamente usados como combustível. Não se trata de cultivo propriamente dito, porque as algas nunca são coletadas e sim liberam óleo que passa a flutuar no recipiente que as contém. É mais um processo bioindustrial.
Por sua vez, os cientistas do Indian Institute of Science em Bangalore estão trabalhando num projeto que “ordenharia diatomáceas (uma alga unicelular) como se ordenha vacas”. Um hectare de diatomáceas proderia produzir de 10 a 200 vezes a quantidade de óleo extraído da soja. Os pesquisadores liderados pelo Professor T. V. Ramachandra propõem a construção de um painel solar biológico no qual as diatomáceas tomarão o lugar de células fotovoltáicas. As diatomáceas flutuariam numa solução aquosa rica em nutrientes e produziriam óleo quando expostas à luz solar.
Ao concluir esta breve resenha de matérias referentes ao potencial bioenergético de algas4, vale a pena citar mais uma vez Raffaello Garofalo: não mais de dez a quinze anos nos separam da produção industrial de biocombustíveis a base de algas. Não há tempo a perder, já que o Brasil tem todas as condições para avançar nesta direção.
2 Ver Dinheiro Rural, n°059, setembro 2009, p.52-53.
3 Ver a este respeito o memorando n°18/09, “As perspectivas da aqüicultura” (12/05/09).
4 Todas contídas nas edições de boletins diários publicados online no site: www.checkbiotech.org.
01:59 PM, 06 Out 2009 por Admin. Comunidades | Comentários (0)
Pós-escrito ao memorando “O petróleo pré-sal e os Territórios da Cidadania”
Por Ignacy Sachs, 5 de outubro 2009
O debate sobre o pré-sal continua animado. Neste pós-escrito comento duas matérias que chegaram às minhas mãos após a redação do memorando “O petróleo pré-sal e os Territórios da Cidadania”.
Em artigo publicado no Estado de São Paulo (21/09/09), o Professor José Goldemberg adverte (com razão) contra a euforia provocada pela descoberta do petróleo pré-sal: “uma euforia exagerada em relação à descoberta de mais petróleo tem de ser evitada, a fim de não levar o país a abandonar recursos e tecnologias que sejam sustentáveis a longo prazo e que não vão se exaurir como o petróleo ou gás.” No entanto, esta advertência o leva a uma cautela a meu ver excessiva: “Investir agora enormes recursos do governo na exploração do pré-sal – que certamente vão fazer falta em outras áreas, como educação e saúde – contando com grandes ganhos no futuro, é pelo menos temerário.” Não vejo tampouco razão porquê dividir o risco (aparentemente pequeno) e os custos (altos) com outras empresas do petróleo, abandonando a lógica que levou à criação da Petrobras em 1953.
No dia 2 de outubro, o Valor publicou uma importante entrevista com Sérgio Besserman Viana co-autor, junto com José Eli da Veiga e Sérgio Abranches, de uma contribuição ao livro Brasil pós-crise – Agenda para a próxima década, editado por Fabio Giambagi e Octávio de Barros (Editora Campus).
Concordo com a tese central da entrevista de que, “o uso inteligente do pré-sal é utilizar estes recursos para potencializar a transição para outra matriz energética, aproveitando as vantagens comparativas do Brasil em biomassa, solar, eólica, pequenas hidrelétricas.” Lembrando que “o pré-sal é uma benção, uma riqueza, mas é o passado” e que o Brasil tem grandes vantagens comparativas no mundo de baixo teor de carbono.
Sérgio Besserman identifica três grandes eixos na construção de uma economia de baixo carbono: a energia, a Amazônia e a logística.
Mais uma vez concordo com ele quando diz que a Amazônia precisa com urgência de um novo modelo de desenvolvimento. Trata-se de um desafio civilizatório novo. Cabe ao Brasil criar um modelo de desenvolvimento sustentável para uma economia tropical, explorando em particular o enorme reservatório genômico da floresta amazônica. Consignei as minhas reflexões sobre o assunto no texto “Amazônia: laboratório das biocivilizações do futuro”, preparado na vêspera do Fórum Social Mundial de Belém (outubro 2008).2
A insistência sobre o transporte é bem vinda. É necessário rever através de parcerias publico-privadas a questão das ferrovias, hidrovias e navegação costeira, integrando todos estes modais. Sem esquecer soluções inovadoras, como o transporte de cargas perecíveis da Amazônia para o Sul do país por dirigíveis.
Em que pesem estas convergências, continuo a pensar que o debate sobre o aproveitamento dos recursos gerados no futuro pelo petróleo pré-sal deve incluir a utilização de uma parcela significativa destes para políticas de cunho social, tais como o desenvolvimento dos Terrtiórios da Cidadania.
10:44 AM, 05 Out 2009 por Admin. Comunidades | Comentários (0)
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